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Chile: A força do protesto social

Quase cinco meses de mobilizações em rejeição ao modelo educacional imposto na ditadura dão conta da maturidade da consciência social no Chile, país caracterizado por uma indignante distribuição da riqueza.

DA PRENSA LATINA

A última marcha pela Alameda de Santiago e as que já assomam demonstraram em definitiva o respaldo da cidadania às demandas dos estudantes chilenos, apoio que chega quase a 90 por cento, segundo última pesquisa do Centro de Estudos da Realidade Contemporânea (CERC).

Precisamente o resultado da sondagem, aplicada em agosto último, foi um novo golpe para o presidente Sebastián Piñera, apoiado só por 22 por cento dos chilenos, 13 por cento a menos que a aprovação atingida no mês precedente e o mais baixo índice de popularidade de um mandatário desde a queda da ditadura.

Aos dados nada alentadores para La Moneda lançados pelo estudo do CERC se soma a opinião da população sobre a credibilidade do chefe de Estado: 67 por cento crê-lhe pouco, 16 por cento crê-lhe mais ou menos e só 14 por cento afirma lhe crer muito.

Os grandes triunfadores da consulta pública foram os estudantes, respaldados por 89 por cento dos entrevistados; enquanto outro 56 por cento admitiu ter participado nas manifestações por uma mudança de modelo sócio-político.

Também é significativo o número de cidadãos que se inclina pela realização de um plebiscito como método de expressão e exercício da vontade popular.

71 por cento da população apóiam a idéia do referendo, resultado que bate com o 61 por cento de consultados que não vê um real interesse do governo em solucionar o conflito educacional.

Em sintonia com a reivindicação cidadã, na semana passada, a Mesa Social pela Educação Pública, que agrupa reconhecidas organizações sociais como o Colégio de Professores de Chile, convocou um plebiscito nacional sobre educação para 7 e 8 de outubro.

A educação deve voltar a ser responsabilidade do Estado, gratuita, de qualidade e terminar com o lucro em todos seus níveis?, seria a interrogante que se apresentaria ante o povo.

A proposta do grêmio magisterial é apoiada pela Central Unitária de Trabalhadores, a Coordenadora Nacional de Pais e Apoderados, a Confederação de Estudantes do Chile e as organizações de estudantes secundários, entre muitas outras organizações sindicais, gremiais e de vizinhos.

É que no Chile as cifras de investimento em educação são um desastre, coincidem especialistas na matéria, que ilustram como 85 por cento do rendimento e os estudos nas universidades são financiados pelas famílias.

De acordo com o presidente da Confederação de Trabalhadores do Cobre, Cristian Grutas, a transversalidade do respaldo ao petitório dos estudantes e magistério explica-se porque o modelo não dá mais, ao reproduzir as desigualdades e promover um verdadeiro apartheid na educação.

Para o Partido do Socialismo Allendista, o apartheid no Chile vai para além do tema educacional e os que hoje se mobilizam nas ruas advogam em definitivo a mudança do modelo econômico dominante imposto sob o terror dos golpistas.

Chile tem hoje em dia uma alta concentração patrimonial. Os grandes grupos econômicos estão superconcentrados, e são hoje exponencialmente muitíssimo mais poderosos e incrementaram seu patrimônio aumentando as margens de desigualdade, sustenta Silva. No julgamento do senador socialista Pedro Muñoz, expressão evidente dessa desigualdade é o alto nível de endividamento dos setores econômicos mais desfavorecidos da população e em particular dos jovens, outra das verdades que sacou à luz a última pesquisa do CERC. Assim, os que se encontram entre os 18 e 25 anos apresentam níveis de endividamento comparáveis aos demais trechos, em circunstâncias que muitos deles estão em etapa de estudos ou começando sua vida trabalhista, a maior parte das vezes com empregos precários.

Essas cifras, sublinha o legislador, demonstram a angústia de milhões de chilenos que vivem e trabalham para pagar dívidas ou solicitar empréstimos.

MESA DE DIÁLOGO: O CAMINHO?

A convocação ao diálogo pelo Governo é o resultado de meses de mobilização, opina o presidente do Colégio de Professores, Jaime Gajardo, quem junto aos principais líderes dos estudantes chilenos participa do cara a cara já iniciado entre La Moneda e o mundo social.

Alinhado a esse ponto de vista, a porta-voz da Confederação de Estudantes do Chile, Camila Vallejo, considera que sem mobilização não pode se falar de dialogar nem de nada. O protesto social é nossa força, sustenta com ênfase.

Por isso mobilização e diálogo vão paralelos na agenda dos indignados chilenos, céticos diante de um governo que por seu tronco ideológico recusa as principais reivindicações populares: Educação pública gratuita, Desmunicipalização da educação escolar sem privatização e Fim do lucro em todo o sistema de ensino.

A mesa de trabalho proposta pelo governo responde a uma política de cortinas de fumaça, enquanto tenta-se dividir, ameaçar e reprimir aos estudantes, sem retroceder nem um milímetro em posturas superideologizadas, manifestaram à Prensa Latina representantes da Nova Esquerda Universitária.

O governo, respaldado pela oligarquia local, nega a possibilidade de construir uma educação que se entenda como um direito social, opina a referida organização para a qual só mediante um Plebiscito Nacional é possível manter as esperanças da maioria dos chilenos.

Segundo a revista chilena Punto Final, pesa também no meio da atual crise política e social que vive o país sul-americano a ausência de uma alternativa de esquerda.

A Revolução Democrática que vive o Chile, reflete a publicação, ganhou sua primeira batalha, a que se dirime no grande júri das consciências e que faz ver que é majoritária a rejeição ao modelo de economia de mercado.

No entanto, ante tal realidade a esquerda tem que fazer um esforço para renascer de suas cinzas e em aliança com o mundo social apresentar uma alternativa de esperança, reforça Punto Final.

Certamente essa alternativa parece extraviada no momento estratégico da história de Chile.

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