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Diários das Ruas

No dia 1º de junho, ocorreu o segundo e principal protesto do #ForaMicarla e #ForaRosalba. Pra quem não sabe do que se trata, um bom resumo é que é um movimento surgido do descontentamento da população natalense quanto à administração de sua prefeita. As redes sociais, sobretudo o Twitter, foram o meio que articulou e mobilizou esse descontentamento. A governadora, detentora de outra administração medíocre, garantiu seu espaço no escopo dos descontentes.

Cerca de mil pessoas – sobretudo jovens e muitos trabalhadores – partiram do Largo do Machadão e começaram a ocupar as ruas, algumas das principais vias do trânsito municipal. Tambores improvisados, bandeiras improvisadas, camisetas, tinta na cara e nariz de palhaço. Faltava poucos minutos pras 19h. Abordavam motoristas, passageiros e faziam grande algazarra. Muitas e criativas palavras de ordem contra a prefeita Micarla e a favor de sua deposição se ouviam. Assim que percebiam que já haviam parado o trânsito por tempo insuficiente, partiam pra outras vias. Dessa forma o protesto paralisou todas as ruas e avenidas do entorno.

A seguir, a massa se deslocou para a BR 101, primeiro na via principal, em seguida também na marginal, no sentido Zona Sul. Jovens de bicicleta e skate andavam livremente pela principal avenida da cidade, toda livre de carros. Ao chegar ao Natal Shopping, a mobilização já havia dobrado seu contingente, com rebelados tardios e adesão de populares que circulavam na região. De lá partiram pro desfecho do ato até o Praia Shopping.

O povo aplaudia
Protesto durou cerca de 4 horas. As naturais manifestações de descontentamento daqueles que ficaram presos no trânsito se fez ouvir, mas bem baixo. O inesperado foi que mesmo aqueles que seriam os supostos prejudicados entraram pro coro. Motoristas buzinavam em apoio, populares aplaudiam de seus ônibus, das janelas e dentro dos carros. Assim que as vias eram liberadas, os motoristas que ficaram ao menos meia hora parados partiam saudando e acenando à manifestação.

Num retorno da Roberto Freire, fui falar com um motorista que ficou preso no meio da passeata. Sugeri que retornasse, pois não conseguiria passar. Ele, com uma filha pequena no banco do carona, me respondeu “Tranquilo, não tem problema. Estou curtindo tudo isso.”

A reação da população foi um surpreendente manifesto da força desse movimento e do imenso desgaste da administração municipal.

Tentaram melar o protesto
Já pela manhã do dia marcado para o protesto, jornalistas financiados pelo Governo do Estado anunciavam uma briga de torcidas marcada para acontecer durante a manifestação. Adianto que sequer presenciei briga de namorados durante todo o trajeto.

Outro fato estranho é que manifestação durante as horas em que ocupou a BR 101 foi pacífica e contou com a colaboração e inteligência da Polícia Federal. Mas nos primeiros 5 minutos em que ela esteve numa via local, a Roberto Freire, ocorreu o primeiro incidente, protagonizado pela PM de Rosalba.

Truculenta e desnecessariamente, soldados da Polícia Militar de Rosalba lançaram spray de pimenta em diversos manifestantes. O vice-presidente da UMES (União Metropolitana dos Estudantes Secundaristas), Pedro Henrique, foi a principal vítima. Quando eu saía do banheiro do Nordestão de Cidade Jardim, vi Pedro correndo em minha direção, seguido de um companheiro. Seu estava vermelho e inchado, olhos lacrimejando muito; estava aflito. Não soube dizer por que fora agredido.

Logo os manifestantes pararam e sentaram-se na rua pra discutir o incidente. Foi nesse momento que o próprio Pedro, ao megafone, declarou a todos os presentes que repetiam suas palavras para os mais distantes “A PM jogou spray de pimenta, mas não vamos cair na provocação”, num flagrante registrado pelo repórter Dinarte Assunção em seu Twitter.
A manifestação seguiu tranquila e coesa até seu desfecho.

O povo se mobiliza
Nunca fui fã de movimentos espontâneos (sem direção). Não porque os rejeite como ideia; muito pelo contrário, se tudo pudesse funcionar sem direção (diretores), melhor seria. O grande problema é que em nossa realidade a falta de direção acaba por custar aos movimentos sua perenidade e consequência. Muitos movimentos espontâneos nascem e morrem sem atingir qualquer propósito.

Feita esta observação, digo que estamos diante de uma exceção bastante educativa. O atual movimento que vem tomando as ruas de Natal não possui uma direção consolidada, apesar de já apresentar destaque a certas lideranças. Contudo, parece nesse nascedouro um movimento forte e promissor.

As pessoas seguiam voluntariamente aquela que parecesse a melhor direção. Em certo momentos paravam e debatiam rapidamente sobre os próximos passos. Havia uma unidade de sentimento e ação. Era uma massa bastante ciente de seus propósitos e que acrescentava uma variedade criativa e renovadora, que surgia de onde menos se esperava.

É fato – e positivo – que à medida que o movimento cresça organizações e lideranças tradicionais passem a compô-lo e fortalecê-lo; e por uma dinâmica própria da imprensa, que valoriza as personalidades, assumam certo destaque à frente dum movimento essencialmente plural. Mas também é significativo que nenhum parlamentar ou detentor de cargo público tenha participado do ato. Lá esteve do começo ao fim o presidente da CTB (Central dos Trabalhadores e Trabalhadoras do Brasil), Moacir Soares, e alguns dirigentes de partidos de esquerda.

A onda crescerá
Não sou de dar chute no escuro; nessas circunstâncias, prefiro prender a bola. Mas posso fazer uma previsão simples e segura sobre o movimento em debate: ele – ao menos nos próximos meses – não dará sinal de cansaço; ao contrário, se fortalecerá.

À medida que a passeata seguia, populares aderiam ao protesto, que começando com cerca de mil participantes, chegou em seu ápice a contar com mais de 2 mil.
Quando os ratos saem às ruas, é sinal de que sujeira é grande. Nos últimos meses tenho visto gabirus cada vez maiores saindo dos boeiros e andando livremente pelas ruas. O lixo acumulado pela cidade – cada vez mais suja, fedorenta e barulhenta – os convida para o jantar.

Natal está entregue aos ratos. Essa é a grande explicação pra esse fenômeno de massas que muitos já comparam às ondas que emergiram mundo a fora, sobretudo no Egito, como afirmavam as camisetas da UJS (União da Juventude Socialista). Como no livro de Camus, os ratos simbolizam a peste que assola a cidade – em nosso caso, a peste da má governança – e indicam a chegada do momento em que os cidadãos tem que agir coletivamente pra enfrentar o cancro e suas mazelas. Como no livro, ao final contabilizaremos heróis e bandidos. Mas certamente sobreviveremos. É nessas horas que se constrói uma cidade melhor.

Publicado originalmente em http://www.angelogirotto.com/

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